Imagem capa - 10 mitos e mentiras que (alguns) fotógrafos ainda acreditam por Diogo Sallaberry
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10 mitos e mentiras que (alguns) fotógrafos ainda acreditam



Estou escrevendo esse post no 1º de Abril, o Dia da Mentira, ou Dia dos Bobos. E tem muita gente que se deixa enganar pelo senso comum. Cada profissão tem as suas peculiaridades e os seus mitos, entre fotógrafos, não é diferente: às vezes, só o tempo de prática e uma mente aberta vai te permitir quebrar essas crenças. Separei dez, mas poderiam ser muitas mais, que em algum momento da vida me foram passadas como verdades absolutas. Hoje, não acredito em nenhuma delas - e vou contar o porquê.


Mentira 1: Você Precisa Comprar Equipamento Novo


Talvez você precise, sim, se sua câmera está com problemas ou se não te passa segurança necessária. Mas é muito mais importante saber como usar seus equipamentos atuais do que comprar novos - e demorar para aprender a usar, chegar até o nível do anterior e achar que é hora de comprar, novamente.

Se seu equipamento novo pode trazer uma renda extra que você não consegue com o atual, por exemplo, comprando uma impressora portátil para vender fotos na hora em um evento infantil, então, se jogue! Caso contrário, repense a fotografia que você tem atualmente, procure onde está pecando, peça a opinião de um profissional que você admira, descubra onde melhorar e veja se é mesmo culpa do seu equipamento. A foto abaixo, por exemplo, foi feita com uma Nikon D40 e a lente do kit 18-55mm em 18mm.


O Menino e As Nuvens, fotografia tirada com a antiga Nikon D40 e a lente do kit 18-55mm, a câmera e a lente de entrada mais baratas da época


Mentira 2: Siga Sempre a Regra dos Terços


Composição é mais do que uma única regra. Se todos usarmos a mesma regra para fotografar tudo, que mundo burocrático enxergaremos em nossas fotos, não? Quebra de horizonte, repetição de padrões, simetria, espiral, diagonais, quadro cheio, minimalismo - todas são alternativas à regra dos terços. A regra é fazer foto boa.


Trabalhar com camadas, ou diferentes acontecimentos em um mesmo quadro, exige muito mais técnica e traz muito mais contexto à história que simplesmente usar a regra dos terços



Mentira 3: Velocidade baixa, só com tripé


Essa é uma verdade passada como absoluta em alguns manuais de fotografia (quadrada), cursos e universidades (desatualizadas). O diferencial da fotografia é nos permitir experimentar o tempo de uma maneira diferente: seja congelando as asas de um beija-flor ou deixando o tempo escorrer e riscar a tela da fotografia. Tudo depende de o que você quer comunicar. Para quem quer uma imagem estática, as câmeras e lentes com estabilização, um bom apoio em uma parede, o uso do flash para imobilizar uma imagem e técnicas como o panning (mover a câmera no mesmo sentido de um objeto em movimento) podem resolver muito bem sem o uso de um tripé. Há exceções, como a fotografia de arquitetura e as longas exposições em paisagens, mas são poucas.


O olhar do menino foi capturado enquanto o balanço se movia com o uso da técnica panning, em 1/6 de segundo, permitindo que o fundo caótico desaparecesse na imagem



Mentira 4: Não Use o Flash


Mentiiiiiira! Muita gente que defende o não uso do flash não sabe usar bem o bastante. O flash é difícil de se entender em um primeiro momento, porque não enxergamos o que ele vai fazer até que o obturador seja disparado e a foto capturada. Mas, com técnica, estudo e prática você pode resolver praticamente qualquer problema de iluminação, direcionar o olhar e congelar imagens incríveis com o uso desse equipamento. A foto abaixo foi feita com o uso de flash remoto e baixa velocidade. Tanto faz se você usa LED, flash ou só a iluminação disponível, se você conhecer todas as ferramentas saberá qual utilizar em cada imagem.


O flash mantém a definição nas pessoas enquanto a baixa velocidade de obturador causa o efeito de arrasto nas luzes do ambiente



Mentira 5: Ninguém valoriza a fotografia


Fotógrafos que têm dificuldade de vender seu trabalho muitas vezes não acreditam no que fazem, nunca viram o poder da imagem de trazer alguém distante de volta, de aproximar, de dar saudade, de nos transportar ao passado. Quem não valoriza a fotografia, caro colega, talvez seja você. Se você não consume fotografias, não as guarda, não dá importância, talvez você esteja projetando isso no seu cliente. Eu te garanto que as pessoas que trabalham comigo valorizam a fotografia, porque eu deixo claro o impacto que ela pode causar em suas vidas. O que estamos fazendo para que todos valorizem esses documentos da nossa passagem por esse plano?


Pense no seguinte cenário: alguém fotografa o seu casamento, em uma cerimônia muito especial para vocês. O fotógrafo mostra as fotos, que estão lindas e os representam, e oferece o dobro do valor que você o contratou para apagar todos os registros. Você apagaria?


Mentira 6: Fotografia Boa Não Precisa de Pós-produção


Por muito tempo eu caí nessa. Fotógrafos puristas defendem que as fotos devem sair perfeitas. Mas suas referências são de profissionais como Sebastião Salgado, James Nachtwey ou Steve McCurry, que passam horas com seus laboratoristas apontando as melhorias que devem ser feitas em cada imagem. Sou contra a manipulação - alterar ou adicionar elementos da cena para criar uma nova realidade, porque minha base no jornalismo me leva a isso - mas, depois que entendi que a câmera não enxerga como o nosso olho, passei a usar a pós-produção para passar melhor a mensagem, corrigindo as cores, os contrastes, os tons de pele e os pontos de luz de uma foto. Olhe bem as suas referências e diga quantos reproduzem esse pensamento em seus trabalhos. 


Por mais que esse fosse o tom do céu, a câmera tem dificuldade em capturar a saturação nas altas luzes. É necessário o trabalho de pós-produção para recuperar a tonalidade real


Mentira 7: Criatividade É Um Dom


Criatividade vem de prática somada a boas referências, não de um dom. Olhar fotográfico é prática, feedback de outras pessoas e boas referências, em especial as de fora da fotografia. Quebrar os padrões pode ser um exercício diário. Criatividade é muito mais sobre questionar - "e se..." - do que sobre ser um gênio. Experimente ser diferente. Aquilo que você sempre achou que não daria certo pode ser o que aquele cara que você considera criativo está fazendo. Não se deixe limitar por equipamento, regras ou fórmulas, junte os pontos de assuntos completamente diferentes e comece a criar ainda hoje!


A criatividade entra na hora da captura e na edição (escolha) das imagens. Enxergar o que cada fotografia tem de interessante é metade do processo.



Mentira 8: Quem Cobra Pouco Está Roubando Seus Clientes


Eu comecei há doze anos, cobrando R$ 200,00 para cobrir uma formatura. Na hora de entregar as fotos, entreguei cada uma em uma proporção - umas quadradas, umas 2:3, outras 16:9. Quando a cliente pediu para imprimir algumas fotos no tamanho 10x15cm, eu não sabia o que fazer com as quadradas (cortava mais ou deixava tudo branco dos lados?). Hoje, eu sei que aquele fotógrafo de duzentos reais não valia o que cobrava. Todos nós começamos em algum lugar e, geralmente, cobrando pouco. Se você ainda tem dificuldades de mostrar o que o diferencia de um fotógrafo entrante, então você tem um problema sério na sua fotografia e no seu atendimento. Quem está perdendo os clientes é você. Comece por ouvir as pessoas e conhecer suas histórias. Faça perguntas, tenha interesse. Saiba o que o cliente busca e transforme a experiência de trabalhar para ele em algo positivo para os dois. Não traga fórmulas prontas, fotografe indivíduos, indivisíveis, únicos, com todas as suas peculiaridades e usando o melhor daquilo que chamou a atenção deles para o seu trabalho. Estude sempre, entregue valor e você não ficará sem trabalho.


Se você criar uma relação de verdade com as pessoas, vai se surpreender com quantos momentos da vida delas você será chamado para fotografar


Mentira 9: Concorrentes devem ser inimigos


Essa é uma das grandes mentiras que impede fotógrafos comerciais de crescerem. A maior parte dos profissionais que eu conheço trabalha com um evento por dia. Seja qual for a sua área, há mais eventos por dia do que o que você consegue fazer. Milhares de pessoas aniversariam. Bebês nascem. Famílias se desenvolvem. Casais celebram a sua união. Se você não consegue atender a todos, que tal ter colegas em quem você confia para indicar os trabalhos que você não pode pegar por não ter a agenda livre? Se formarem um grupo, todos crescem, indicando uns aos outros os eventos extra. Quando houver um imprevisto, algum desses colegas pode te ajudar. Vocês podem trocar ideias, medos, soluções e, se o mercado melhorar para um, vai acabar melhorando para os outros consequentemente. Faça parcerias, ajude os colegas e tire as dúvidas de quem está começando. Não seja um panaca.


Fortaleça seus colegas, incentive-os e coloque-se à disposição. Pode não parecer, mas há lugar para todos.


Mentira 10: Se é sua profissão, não pode ser seu hobby


Se um fotógrafo está esgotado e não se diverte fotografando, está a um passo de largar a profissão. Eu já passei por isso; acreditava que a fotografia era só minha profissão e, portanto, não queria saber de fotografar nos momentos de folga. Parei de trabalhar em eventos por quatro anos, seguindo só no fotojornalismo. Não gostava de pegar o celular nem para registrar meu dia. Mudar meu pensamento e encontrar aquilo que mais me empolgava demorou, mas fez eu me reapaixonar por documentar as alegrias na vida das pessoas. Decidi recomeçar em algo que já fazia, com a curiosidade de um amador. Agora, se fico dois dias sem fotografar, sinto falta. Uso o celular como extensão da minha memória e da minha criatividade. Um passeio, uma ida ao restaurante, um olhar pela janela: tudo pode render uma boa foto. Gosto de fotografar como forma de expressão, como algo que me dá prazer e, de quebra, ainda paga as minhas contas. 


Fotografar as reações das pessoas é algo que me interessa, em qualquer cenário. A chuva é uma boa aliada para capturar expressões variadas



E você, que mentiras venceu para chegar onde está hoje?